40 Anos – Festival Baía das Gatas vs Festival de Woodstock

Por Valdemiro Ferreira “Vlu” – Músico, compositor e empresário

O Festival de Woodstock, realizado nos Estados Unidos em 1969, foi um empreendimento comercial idealizado por quatro jovens amigos. Movidos pelo espírito de “paz, amor, música, sexo e drogas”, investiram em um espetáculo musical que acabou atraindo cerca de 400.000 pessoas, com bilhetes a 18 dólares. Tornaram-se milionários. O que veio depois — a massa de jovens hippies, a contestação dos costumes americanos, os protestos contra as guerras, a apologia ao sexo e às drogas — foi espontâneo.

O Festival de Música da Baía das Gatas, por outro lado, nasceu de um impulso muito diferente.

Nós, músicos — e não empreendedores comerciais — fomos os primeiros a plantar essa semente. A ideia original, que propus, era simples e poderosa: reivindicar o nosso espaço dentro da cultura musical cabo-verdiana. Fazíamos uma música que não se encaixava nas molduras tradicionais da morna, da coladeira ou do funaná. Fazíamos uma música livre, criativa, e éramos por isso considerados “alienados culturais”. Estávamos, oficialmente, preteridos.

A escolha da Baía das Gatas também foi simbólica. Era uma praia frequentada pela elite e pelos políticos todos os fins de semana. Poderíamos ter escolhido a Laginha, Monte Sossego, ou mesmo a Praça Nova, como sugeria Vasco Martins, pensando na visibilidade. Mas eu estava focado em conquistar um espaço cultural e o reconhecimento da nossa arte, e não apenas no público.

O festival nunca teve um foco comercial. Era uma proposta de liberdade cultural e musical, de expansão de pensamento. Claro que muitos jovens — admiradores da cultura hippie — se identificaram com a proposta e se juntaram ao movimento, colaborando em várias frentes: bar, cartazes, logística, limpeza, portaria… Mas o espírito da Baía das Gatas era diferente.

Mesmo tendo sido realizado 15 anos depois, é verdade que o Festival de Woodstock influenciou o nosso festival. Mas não foi essa a motivação embrionária. A ideia já estava viva entre nós músicos: eu, Vlu Ferreira, Vasco Martins, Lúcio Vieira, Bulimundo e Tony Miranda. Tocávamos juntos desde 1982 nas noites da Galeria Nhô Djunga, antes mesmo do nome “Gota D’Água” existir.

Foi o Cooks que sugeriu, de forma vaga no início, o nome “Festival da Baía”. E a partir daí, os encontros e discussões deram forma ao projeto, sob a liderança do primeiro presidente da organização, Daniel Medina, com o apoio incansável de muitos apaixonados, como o Engenheiro Gabriel Évora, entre outros.

A multidão de jovens que abraçou o projeto e o fez acontecer no primeiro Festival da Baía das Gatas daria um livro inteiro de feitos e factos — e seria bom um dia contá-los.

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