O Hino Festival Baía das Gatas

Festival Música Baía das Gatas – O Hino e Mais Detalhes

Por Valdemiro Ferreira Vlu

1 – Para a abertura do primeiro Festival da Baía das Gatas foram compostas duas propostas de hino. Uma do Vasco Martins, totalmente instrumental, que se perdeu nos tempos talvez por não ter sido gravada ou por não ser cantada, e outra composta por mim, Vlu Ferreira, de nome “Um Data Magna”, em estilo pop-rock, cantada e gravada em setembro de 1984, em Lisboa, logo após o mês de agosto de 1984. A gravação contou comigo, Vasco, Lúcio Vieira, Blimundo, Renato Silva e João da Silva “Amanhã”. Essa canção acabou por ficar como a referência musical anual do Festival.

2 – Só estes dois músicos compuseram propostas de hino para o Festival porque nós dois e o Dany Mariano éramos os músicos/compositores mais ativos na Galeria Nhô Djunga nessa altura, e também os mais envolvidos na realização do primeiro Festival da Baía das Gatas. Não houve encomenda do hino propriamente dito, nem qualquer concurso nesse sentido. Nós simplesmente sentimo-nos no dever de cumprir essa responsabilidade, dada a nossa ligação direta ao evento.

3 – O hino propriamente dito que fez a abertura do primeiro Festival foi o do Vasco, obviamente, por proposta e decisão dele, aceita por unanimidade. Todos entenderam que o hino deveria ser uma obra instrumental, mais clássica do que moderna. E fazia todo o sentido ser o Vasco a fazer a abertura, sendo ele o dono do espaço, um músico inspirado e com maior perfil para uma abertura magnífica e clássica, como se achava que convinha.

4 – O hino do Vlu Ferreira, uma canção pop-rock com um texto que descrevia a ideia e o propósito da realização do primeiro Festival, foi tocado por mim, Vasco, Lúcio, Blimundo e Tony Miranda no momento da minha atuação no festival.

5 – O Festival da Baía das Gatas não teve um único “arquiteto” que se sentou, concebeu, pôs no papel e entregou ao “engenheiro” e aos vários “mestres de obras”, “pedreiros”, “serventes” e “aguadeiras” para realizar. A ideia e a concepção foram um somatório de ideias e contributos em vários momentos e em vários sítios. A realização foi como a construção de um edifício, onde todos contribuíram com um ou vários blocos até que ele se erguesse na Baía das Gatas, no dia 18 de agosto de 1984, como uma autêntica Meca concorrida por toda a população de Mindelo.

Durante os primeiros 10 anos, ninguém reivindicou, nem poderia reivindicar, nem estava interessado em se chamar ou ser chamado o dono ou o fundador dessa grande obra. A origem embrionária surgiu na minha proposta, durante um ensaio na Galeria em janeiro de 1983, no sentido de fazermos os concertos — que estávamos ansiosos para fazer — na Baía das Gatas.

A pequena ideia de fazermos os concertos na Baía (e não na Praça Nova, na Laginha ou no Monte Sossego, como sugeria inicialmente o Vasco) nasceu na Galeria Nhô Djunga. Isso não significa simplesmente que eu e o Cooks somos os únicos fundadores do festival. Nada disso. Fundadores do Festival da BG são aqueles que tiveram a ideia, todos os que a discutiram, que a aprovaram, que a otimizaram; todos os que foram chamados a contribuir como organizadores, colaboradores e participantes para que o primeiro festival fosse realizado.

Ninguém teria tido a coragem de usurpar as ideias, os contributos, as energias e o trabalho gratuitos de tanta gente, cada um ao seu nível, no seu momento e com as suas possibilidades. Por outro lado, ninguém tinha necessidade disso, porque todos os que inicialmente se envolveram na construção desse grande monumento não o fizeram em busca de protagonismo ou de benefícios pessoais.

6 – Volvidos mais de 10 anos, quem teve essa necessidade foi a Presidente da Câmara Municipal, Dra. Isaura Gomes, que resolveu — para brilho político — homenagear os “fundadores”, e assim criou a ambição egoísta de fama e spotlight em apenas 4 dos vários participantes na criação e no erguer dessa grande obra. Assim começou a batalha pelas honras, com a desonra dos “eus” ou dos “nós os quatro”, de um mérito que sempre pertenceu e pertence a todos nós.

7 – Começaram as batalhas das exclusões ou do derrube das várias torres para se deixar em pé apenas quatro. Ou do apagar de luzes à volta, para deixar acesas no horizonte apenas algumas. Quis-se reduzir a nebulosa a quatro estrelinhas. Sempre achei estranho ouvir as quatro vozes referirem-se a mim de forma vaga, ou até negligente, negando a história e todos os factos que mostram que sou sim fundador do primeiro festival.

A razão míope foi tão longe que até se excluiu o Presidente da organização do primeiro evento do painel dos fundadores. Dizia para mim mesmo: “Porra, como é isso possível? O que é que se passa na cabeça desse pessoal?” Levei anos para entender isso.

É que, por exemplo, no meu caso, à medida que a organização do Festival foi ficando mais exigente em todos os sentidos — e isso exigia mais gente com maior sentido de organização, maior posicionamento social para atrair serviços e energias financeiras —, eu, na posição de músico e diretor dos transportes marítimos inter-ilhas, fui o músico que mais durou na estrutura do Festival. Estive no primeiro e em quase todos os seguintes. Fui e tenho sido, eventualmente, o músico com maior brilho popular relativamente ao Festival da Baía das Gatas.

Julgo que isso terá feito alguns dos restantes fundadores sentirem-se ofuscados e, assim, sentirem necessidade de apagar o meu brilho ou de rebaixar a minha luz para haver mais brilho a favor deles, a quem a Dra. Isaura Gomes inusitadamente terá despertado a ambição de querer arrecadar todas as honras.

Valdemiro Ferreira Vlu

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