Terminal de Cruzeiros de Mindelo: Priorizar o Essencial para um Futuro Sustentável

Nesse Terminal de Cruzeiros faltam, e muito bem — pelo menos por enquanto — os prédios e as infraestruturas desnecessárias que estavam a onerar o orçamento desse projeto, tornando-o, nos próximos 30 anos, quase impossível financeiramente, relativamente à nossa estatura. É um custo que, visto na perspetiva correta, torna-se inviável perante as expectativas dos inputs esperados do negócio de cruzeiros para a ilha e para as restantes ilhas do norte, a médio e longo prazo.

Investir não é simplesmente plantar energias financeiras para agradar expectativas ou construir elefantes brancos que sirvam apenas para merecer palmas e votos políticos, comprometendo, em contrapartida, o equilíbrio e o fluxo da nossa economia. Investimentos devem ser feitos com peso e medida.

Quando esse projeto foi apresentado pela primeira vez à ENAPOR pelos seus mentores, manifestei-me imediatamente contra, e fui sempre contra todos esses prédios que se pretendia plantar no cais, e neles instalar negócios já direcionados para empresas estrangeiras, na tentativa de acaparar os negócios que as companhias de cruzeiros e os turistas esperam ver criados, promovidos e oferecidos pelo destino — pela cidade do Mindelo e por toda a ilha de São Vicente — no sentido de os otimizar e tornar o destino turístico de excelência: amplo, com ofertas respiráveis e diversificadas.

No negócio do turismo de cruzeiros, o porto é nada mais do que um interface, uma passadeira para se alcançar o destino. O importante são as ofertas do destino. O porto e os seus cais devem, sim, ter todas as melhores condições — que agora o nosso terminal oferece — para os navios atracarem de forma suave e segura e para o desembarque dos turistas. Nada mais do que isso.

Os turistas não andam à procura de cais fantásticos, nem de aeroportos fantásticos. Ninguém anda à procura disso. Procuram destinos fantásticos. No negócio do turismo de cruzeiros, todo o interesse vai para a magnitude, em todas as perspetivas, do destino.

Embora no shipping business a definição de “porto” englobe a cidade, no turismo de cruzeiros, quando se fala em destino, fala-se de todas as ofertas possíveis para além do porto. Quem deve ter tudo o que os turistas procuram não é o cais, não. Quem deve ter tudo o que os turistas procuram é a ilha e a cidade do Mindelo, que por sorte está a poucos minutos a pé do cais onde os navios irão atracar.

O Diretor de Operações da TUI Cruise disse-nos, quando lhe apresentámos o projeto inicial:
— “Para que tudo isso? Quem é que vai pagar tudo isso? Seguramente esperemos que não sejamos nós.”

Ele pensou que tudo isso iria disparar as despesas do terminal para os navios, o que seria perigoso. E continuou dizendo:
— “O que precisamos de vocês é a otimização dos destinos das cidades e das ilhas. Construir berths com as melhores condições, sim, mas todo o enfoque dos vossos investimentos deve ser na otimização da cidade e da ilha: seus sites, os seus serviços, entretenimento, lojas duty free, e todas as boas ofertas possíveis para aumentar as vossas vendas, serviços e facilidades, em quantidade e qualidade, para os turistas.”

Estamos todos de acordo que nada se compara à opinião do cliente. O negócio é aquilo que o cliente quer, e não aquilo que queremos. Pensar, todos temos o direito e o dever de pensar, mas opiniões de valor, guidelines, é bom que venham dos nossos clientes e dos experts da área.

Por estas razões, o projeto do terminal foi devidamente retificado e redimensionado. Acreditamos que, seguramente, a ilha e a cidade do Mindelo continuarão a ser alvo de mais atenções e investimentos complementares ao terminal, no sentido de continuar a otimizar as ofertas do destino.

Batalhámos sempre. Esses prédios, pelo menos por enquanto, não fazem falta nenhuma. Novos e bons hotéis já foram construídos na cidade, a sete minutos do cais. Seria patético construir mais hotéis e lojas no cais, a dois minutos do navio.

O que os turistas querem — e o que todos queremos — é que eles visitem a cidade e a ilha no seu todo, que a usem e desfrutem, pagando, claro, todas as boas infraestruturas e serviços que teremos que continuar a criar. Tudo o que de bom pudermos oferecer e vender-lhes.

A César o que é de César, a Deus o que é de Deus.
A ENAPOR, o Governo, a cidade do Mindelo e a ilha de São Vicente, no que diz respeito a este Terminal de Cruzeiros, estão de parabéns.

É a minha opinião como profissional e empresário da área há 48 anos.

Valdemiro Ferreira – Vlu
Fundador da A.A.B. – Shipping Agência Viking, Lda.
Em parceria com a P&O (U.K.) e a F.O.C.L., pioneira no estabelecimento propriamente dito do Turismo de Cruzeiros em Cabo Verde, em 1994.

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